quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Liquidificador Cultural



Exibição de obras assinadas por grandes artistas plásticos, entrevistas com cineastas de renome e documentários sociais denunciativos são exemplos do que se pode ver todas as noites de domingo no programa Fantástico, da Rede Globo, assim como dicas de tinturas de cabelo, cobertura do casamentos de celebridades e entrevistas com personalidades do calibre da cantora Kelly Key. A revista eletrônica funciona como uma espécie de “liquidificador cultural”, misturando ingredientes eruditos e popularescos em uma mesma receita consumida por milhões de pessoas do Oiapoque ao Chuí.


A edição de imagens, a trilha sonora das reportagens e o cenário moderno dão ao programa um requinte bem parecido ao figurino da elegante apresentadora da atração, Glória Maria. Mas em análise mais apurada ao seu produto final, o “show da vida” acaba não sendo tão sofisticado quanto parece. Ele acaba transformando elementos da cultura erudita em cultura massificada, que por sua vez é apresentada no programa com certo teor erudito.


A explicação para essa “fusão” entre culturas pode estar nos gráficos de audiência do programa. Como bom fruto da indústria cultural, o Fantástico deve ser guiado pelos olhos da audiência, e consequentemente do lucro. Existe certo equilíbrio entre as classes sociais (infelizmente, o nível cultural do individuo ainda é totalmente associado à sua classe social) que assistem à atração global, resultando na falta do chamado público alvo. Assim, a produção do programa precisa agradar tanto a parcela do público que quer ver trechos de apresentação do fantástico (sem trocadilhos) Cirque de Soleiu quanto a parcela que tem curiosidade em saber quanto tempo da vida uma mulher gasta em um salão de beleza.


Os apresentadores também se encaixam no modelo “multisocial” do programa. Um é homem, branco, na faixa dos 30 a 40 anos e adota um estilo mais despojado na fala e no vestuário. A outra é mulher, negra, na faixa dos 50 a 60 anos que fala e se veste de forma mais fina. Figuras totalmente diferentes apresentando um programa que ainda conta com uma apresentadora virtual e participação do ator Tony Ramos, admirado por todas as classes sociais, no quadro “Amigos da Escola”, que por sua vez, mira demonstrar a função social e solidária da atração.


A função jornalística da atração global é um fator questionável. Grande parte das notícias divulgadas pelo Fantástico fornecem ao telespectador uma opinião já formada do assunto, fazendo com que o espírito crítico do telespectador (principalmente dos que estão adequados à cultura de massa) não seja trabalhado. Isenção total dos fatos não é forte característica do jornalismo do programa.


No colocação de terceira maior audiência da principal emissora brasileira, o dominical tem forte apelo comercial. Uma inserção de trinta segundos no intervalo da atração custa centenas de milhares de reais. Os produtos anunciados são mais uma prova do grande “liquidificador cultural” que é o programa. No intervalo comercial, é oferecido aos telespectadores desde serviços em grande banco privado e automóveis até inseticidas “mata-baratas” e palhas de aço. Mais uma vez a idéia de que “é preciso atingir todos telespectadores” é válida. Dessa vez, de forma mais positiva aos cofres da Rede Globo.


Após mais de duas décadas de existência, o programa gerou seguidores (é o caso do Leitura Dinâmica, exibido pela Rede TV! E do Domingo Espetacular, exibido pela Rede Record) e ainda agrada ao brasileiro, com uma audiência média de louváveis quarenta e nove pontos de audiência nas quase três horas em que é exibido. A fórmula do programa é algo que deu certo até hoje, mas sempre passa por reformulações necessárias para que o show da vida não se transforme em “show do tédio”.

2 comentários:

Thiago Barbosa disse...

É isso aí Glauco, belo texto. O Fantastico e os outros programas desse calibre agem dessa forma, movidos pelo lucro, maquiando um cunho cultural.

leo porto disse...

tenho só uma critica glauco...
Entao, a questao do "multisocial", pq assim a mulher negra, com o formato de branco, ja viu o cabelo lisinho????
Mas o texto ta massa!!!